Não sei da verdade, aliás pouco sabemos da verdade, então irei contar algo que permanece em meu ser. Para quem acredita em vidas passadas, preste atenção e para quem não acredita leia sendo apenas um conto pitoresco.
Era entardecer, em uma época a qual aparentemente distancia-se dos nossos dias, sem datas, locais exatos, apenas algo impregnado em minha alma. Eu era uma menina-mulher, devia ter meus quinze anos, morava em uma cabana de madeira escura, troncos rústicos em meio a uma floresta de pinheiros gigantesca. Dependendo do dia ainda sinto o aroma da madeira molhada que exala o perfume de musgo de carvalho. Um cheiro bem pitoresco, único. A luz do sol adentrava por entre as frondosas copas, refletindo no gelo que brilhava tímido e preguiçoso. Os pássaros cantarolavam, haviam esquilos e outros animais espalhados pelos arredores da cabana. Lembro-me pouco dos detalhes, mais sei que havia uma espécie de cozinha, fogão se assim posso dizer de ferro que colocávamos lenha, muitos potes, panelas eram ou de ferro ou de barro, tudo era rústico. Dormíamos sobre peles e lã, em um andar acima, eu e minha amada Mariáh, minha mãe postiça, pois eu fui abandonada cedo, talvez meus pais tenham sido mortos. Mariáh era uma senhora de idade avançada, cabelos compridos e grisalhos, sempre trançados. Duas espessas tranças caiam por seus ombros cansados. Ela era uma senhora robusta, olhos azuis. Eu era uma mocinha ruiva, cabelos bem encaracolados, sardenta, pele muito branca, bochechas vermelhas, lábios rubros e olhos verdes água, magra e alta. Tinha um cavalo caramelo tostado, da raça Percheron. Nome Thábor ou Thábora. Falando em nomes, o meu era Zyrennáh, muito prazer. Qual minha descendência, não sei. Certa feita, Mariáh pediu-me para seguir até um vilarejo ao qual tinha uma taberna e comprasse uma bebida amarga feita de ervas, não sei o nome. Fui até lá, já era entardecer, chegando na taberna, lugar escuro, cheio de mesas entalhadas de pinheiro, pessoas estranhas, com cara de pouco amigas. Pelo visto quase não íamos para a vila. Apanhei um barrilzinho também de madeira, todo trançado com couro e rebites. Entreguei ao senhor da taberna umas moedas de bronze pesadas e grandes e saí retornando para casa, eu e Thábor. Entrei na cabana chamando por Mariáh que não estava, estranhei, procurei por tudo e nada. Comecei a me preocupar. Então, vesti minha capa de lã marrom, sobre um vestido verde musgo, bem escuro, amarrado, trançado na frente, quase um corpete, era longo, e as mangas eram largas. Coloquei o capuz na cabeça e comecei a entrar cada vez mais na floresta. O dia estava particularmente cinzento, havia nevado e o frio já estava começando. Cada vez mais frio e a neve começou a cair, já estava escurecendo, pois na floresta escurecia mais cedo. Eu nem me dei conta que já estava perdida. Busquei por alguma clareira e nada e a noite caiu. Thábor deve ter se assustado com algo, empinou e me jogou longe, e caí batendo a cabeça em algum galho no chão. Apenas me lembro que quando acordei, abri meus olhos e ainda embaçados, vi ao longe uma sombra, um cavaleiro e desmaiei novamente. Frio, cansada, machucada, provavelmente já com fome. Se ali permanecesse iria perecer e sucumbir naquela floresta. Não sei quanto tempo se passou, apenas lembro-me que acordei aquecida, próxima a uma fogueira. Vislumbrei a certa distância um homem de costas, cabelos compridos escuros, alto, corpulento. Escutei o relincho de Thábor e o homem se virou, indo ao meu encontro. Quando se aproximou, olhou-me nos olhos, seus olhos eram de um negrume sem tamanho, semblante severo, tinha uma cicatriz no rosto quadrado. Vestia roupas pretas pesadas, lembro-me de um anel em sua mão. Ele se apresentou, dizendo chamar-se Khanthur. Aparentemente ele era um cavaleiro. Após isso, lembro-me que comemos, ele me levou para a sua vila. Lá pelo que eu sinto vivemos juntos. Esta é minha lembrança. Sempre tenho flashes de memória, pessoas dançando próximas a fogueiras, poucas casas, um rio. Um vale, ataques de homens naquele lugar, tenho visões da vila pegando fogo, crianças correndo, também, não sei se tudo isso é apenas em uma lembrança, mais vejo-me sendo torturada em um calabouço, com pedras sobre as minhas pernas. E também, degolada. Quanto a Mariáh, nunca soube o que aconteceu com ela, que detalhe, éramos curandeiras, talvez considerasse-nos bruxas. Eu não sei ao certo, apenas estas lembranças estão comigo desde sempre. E o Khanthur – o meu bárbaro, nômade, ou até um cavaleiro das antigas, sempre levo o seu nome em forma de amor e devoção. Se realmente encarnação existe, ainda espero um dia poder reencontrá-lo. Ele usava um punhal de cabo preto na cintura. Eu sinto, eles eram ciganos. Eu não sei de mim. Sinto falta desta época, das pessoas, das crianças, do celeiro onde armazenávamos grãos, dos animais, pelo visto, vivi por um bom tempo ali, até me tirarem a vida.
Já escrevi dezenas de vezes este conto, para tentar resgatar mais e mais lembranças...
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